Educação integral: o caminho para transformar o futuro da juventude brasileira

O Brasil enfrenta um desafio histórico na educação básica. Os indicadores mais recentes mostram que milhares de estudantes chegam ao ensino médio sem domínio adequado da leitura, da escrita e da matemática. O problema não surge nessa etapa. Na verdade, ele começa muito antes, nos primeiros anos da vida escolar, quando a formação básica deveria consolidar as competências essenciais para o desenvolvimento do estudante.

Dados nacionais apontam que apenas 32,4% dos alunos do ensino médio alcançam aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e apenas 5,2% demonstram domínio esperado em Matemática. Os números revelam uma realidade preocupante e reforçam a necessidade de uma mudança estrutural na forma como o país pensa a educação.

Nesse cenário, a ampliação do ensino integral surge como uma das estratégias mais importantes para enfrentar as deficiências educacionais acumuladas ao longo da trajetória escolar. Não se trata apenas de aumentar o tempo que o aluno permanece na escola. Trata-se de ampliar oportunidades de aprendizagem, fortalecer vínculos, desenvolver habilidades socioemocionais e oferecer um ambiente mais favorável para a construção do conhecimento.

É justamente nessa direção que o Instituto Promover (IPHAC) vem atuando por meio do Programa de Educação em Tempo Integral (PETI). Atualmente, a iniciativa já está presente em sete municípios e tem demonstrado resultados positivos no fortalecimento da aprendizagem, na ampliação das atividades pedagógicas e na formação integral dos estudantes.

A experiência prática reforça aquilo que especialistas e estudos já apontam: quanto mais cedo o investimento ocorre, maiores são as chances de transformação social. Pois quando uma criança recebe acompanhamento adequado nos anos iniciais do ensino fundamental, ela chega às etapas seguintes com mais autonomia, mais capacidade de aprendizagem e melhores condições para construir seu projeto de vida.

Essa discussão também precisa estar conectada ao ensino médio e ao mundo do trabalho. Hoje, muitos jovens chegam à fase de profissionalização carregando defasagens acumuladas durante anos. Como consequência, enfrentam dificuldades para aproveitar plenamente as oportunidades oferecidas por programas de aprendizagem e qualificação profissional.

Por isso, é fundamental pensar a educação como uma trajetória integrada. O fortalecimento da base educacional por meio do ensino integral deve caminhar junto com políticas de inserção produtiva da juventude. Nesse contexto, a Lei da Aprendizagem representa uma ferramenta estratégica para conectar formação educacional e experiência profissional.

Defendo que o país avance cada vez mais em modelos que promovam a concomitância entre ensino médio e aprendizagem profissional para jovens entre 14 e 24 anos. A escola precisa dialogar com os desafios do presente e preparar os estudantes para as exigências do futuro, sem abrir mão da formação humana, cidadã e acadêmica.

O debate sobre o novo ensino médio também precisa considerar essa realidade. A expansão de modelos sem integração efetiva entre formação básica e preparação profissional pode ampliar dificuldades já existentes. O desafio não está apenas em reorganizar currículos, mas em garantir que os estudantes desenvolvam competências essenciais para a vida, para a continuidade dos estudos e para o ingresso digno no mercado de trabalho.

O Brasil precisa enxergar a educação integral como investimento estratégico e não como despesa. Os resultados aparecem na aprendizagem, na redução das desigualdades, na inclusão social e no desenvolvimento econômico.

Se queremos uma juventude mais preparada, mais autônoma e com melhores perspectivas de futuro, precisamos começar pelas bases. E essas bases são construídas nos primeiros anos da educação, fortalecidas pelo ensino integral e consolidadas por políticas que aproximem escola, cidadania e trabalho.

Valdinei Valério é mestre em Ciências Sociais e presidente do Instituto Promover (IPHAC)

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